Precisamos falar sobre o aborto

Outubro é o mês de conscientização sobre perda infantil e gestacional (Pregnancy and Infant Loss Awareness). Em países como Itália, Estados Unidos e Austrália, o dia 15 de outubro é dedicado a esta causa.

Falando especificamente em perda gestacional, 1 em 4 gestações terminam espontaneamente. É um número bem alto, ou seja, sofrer um aborto espontâneo é muito mais comum do que se imagina, porém as pessoas não falam sobre isso.

Tive uma primeira gestação maravilhosa, sem enjoos, sem problemas, parto tranquilo. Nossa experiência com o Valentino tem sido tão positiva que logo nos animamos para um segundo filho.

Eu amamento em livre demanda, portanto não havia menstruado desde a gravidez dele. Logo, não estava ovulando. Um belo dia, no entanto, me senti enjoada e muito indisposta no trabalho. Ao chegar em casa e fazer um teste de gravidez, senti aquela emoção do positivo novamente! Nosso sonho estava se realizando: sempre quisemos uma família grande!!

Fui fazer o ultrassom na semana seguinte para saber de quanto tempo estava, e eram quase 7 semanas já! O bebê estava previsto para o dia 11 de fevereiro de 2018! Bebê carnavalesco!

Tudo estava correndo muito bem: enjoos leves pela manhã, vontade de comer muita coisa doce (diferentemente da gestação do Valente, que eu só queria frutas, iogurte grego e sopa de lentilha!), barriguinha crescendo, coração cada dia mais transbordando de amor.

img_7167

10 semanas e uma saliente pancinha já se mostrava!

Estávamos super ansiosos para o ultrassom das 12 semanas. Porém, na véspera, eu fui ao banheiro e me deparei com um leve filete de sangue. Fiquei com a pulga atrás da orelha, consultei minha irmã, falei com meu marido, que me acalmaram. Muitas pessoas tem sangramentos gestacionais aleatórios e os bebês nascem saudáveis. Estava com 12 semanas e 3 dias de gestação. Na manhã do ultrassom, no entanto, tinha um pouquinho mais de sangue… fiquei com o coração meio pesado, mas fomos lá ver nosso bebê!

Eu e meus dois amores: amor que não se mede!

Assim que chegamos, vimos a imagem do feto de relance e sorrimos aliviados. Porém, a sonógrafa fechou a cara na hora e nos disse que viu o que não queria ver: o bebê estava muito pequeno para o tempo de gestação. Me desesperei, perguntei se ela tinha certeza daquilo e ela me disse que infelizmente sim. Mediu os batimentos cardíacos e não veio nada…O chão se abriu naquele momento. Como assim, meu bebê… morto?!

A gente nunca acha que vai acontecer com a gente. Ainda mais que vai acontecer em uma segunda gravidez. Ainda mais quando a primeira gravidez foi tão de boa. Naquela mesma tarde fomos ao médico,que me disse que eu teria que fazer uma curetagem pois o feto havia parado de se desenvolver 3 semanas antes. Eu tive um aborto retido!

Ele pediu para que eu fosse ao hospital na manhã seguinte para o procedimento, porém, não foi necessário. Naquela mesma noite, comecei a sentir cólicas. Coloquei um absorvente leve e fui me deitar. No meio da madrugada, acordo com o colchão ensopado: era sangue! No meio desse caos, Valentino quis mamar. Cada sugada que ele dava me fazia sentir muita dor. Era uma dor lancinante, como se tivesse uma onda gigante crescendo e se quebrando dentro de mim. Quanto mais ele sugava, mais contrações eu sentia! Quando ele finalmente soltou o peito, corri para o banheiro.

Ao me despir, olhei para o absorvente e no meio do sangue, vi duas bolinhas pretas. Olhei com mais atenção e me assustei: era o bebê, inteirinho! Tinha cabeça, bracinhos, dedos, perninhas, o tronco estava esticadinho. Devia medir uns 6 cm. Eu chorei muito. Ele era tão perfeitinho… Na sequência, comecei a soltar muito sangue.
Pela manhã, o médico me disse que eu ficaria sangrando por mais uns 10-15 dias, até passar todos os tecidos restantes, e que assim que meu ciclo menstrual voltasse, eu poderia tentar engravidar novamente, que as chances de uma nova gravidez acontecer rápido eram grandes por conta dos hormônios em alta no corpo.

A reação das pessoas foi meio estranha. Faltou um pouco de empatia por parte de algumas. ‘Ah, estava no começo.’, ‘Você vai engravidar novamente, relaxa’, ‘Você já tem um filho, logo vem outro’, ‘Tem gente que passa por situações piores’. É preciso respeitar o luto alheio! Era uma vida que estava ali! Um bebê que eu já amava tanto quanto amo o Valente! Esse texto aqui ilustra bem o sentimento que eu tive.

Hoje, passados exatos dois meses do ocorrido, estou vivendo um dia de cada vez. Senti muita revolta, tristeza, uma sensação profunda de incompetência. Uma culpa gigante. Meu corpo matou o bebê, era culpa minha, fiz algo errado.

Na semana passada eu completaria 20 semanas de gestação. Metade do caminho. E estou onde agora? Com a minha barriga flácida e vazia, mas com o coração cheio de esperança e amor. Meu corpo está se recuperando aos poucos. Voltei a menstruar um mês depois do aborto. Em 15 dias, tive um novo ciclo menstrual e com ele, uma TPM que você respeita: humor flutuante, retenção de líquidos, chororô.

Estamos tentando ver que o aborto retido pode ter sido uma benção disfarçada. Poderia ter nascido uma criança com problemas sérios de saúde, ou que nasceria e morreria depois de semanas ou meses, o que seria ainda pior. Poderia ter sido uma gestação que iria terminar mais pra frente, que seria mais sofrido para nós. Acredito nos desígnios de Deus, no destino… era para ter sido assim.

Ainda bem que tenho esse anjo! Ele não tem noção de quanto tem me ajudado a seguir!

Antes de vir para a Austrália em 2005, escrevi uma carta aos meus pais com uma citação do Walt Disney: os sonhos são para sempre. E é isso! Essa frase está me ajudando a me reerguer agora. Não vamos desistir do sonho da nossa família! Esse anjo veio para nos mostrar que o amor se multiplica. O que falam é verdade, quando a gente acha que já ama com todo o coração, descobrimos que é possível amar ainda mais! Eu espero ansiosamente o dia em que seremos abençoados de novo.

Precisamos falar sobre o aborto, sobre a perda, sobre o luto. Isso é natural. Fiquei impressionada com o número de pessoas que passaram pela mesma situação nas nossas famílias e no nosso círculo de amigos – essas histórias ficam escondidas, as pessoas têm receio, dor em expor suas emoções. A impressão que tenho, de forma geral, é que somente o que é feliz e bonito merece ser compartilhado. Talvez se esse assunto não fosse um tabu, ou fosse mais discutido, não seria tão chocante passar por essa experiência.

A você que leu meu relato até o final, peço desculpas pelos detalhes. Resolvi me expor pois acredito que posso ajudar outras pessoas que passaram ou estão passando por isso. Saibam que vocês não estão sozinhos!

E, ao meu querido anjo, saiba que a mamãe te amou desde sempre e até o fim! Você foi muito amado e desejado por nós, e sempre será!