Os contrastes da volta ao trabalho

Voltar ao trabalho é ir do tudo ao nada no momento em que se sai de casa com o crachá na bolsa.

Passamos ao menos 120 dias embalando a cria por 24h para, repentinamente, termos que ficar longe dela por mais tempo do que ficamos perto. E não é apenas ficar longe. É tentar desligar a cabeça de casa e se concentrar no seu trabalho e nas entregas a serem feitas, é estar com a cara minimamente apresentável mesmo que a madrugada tenha sido em claro, é sorrir e acenar quando a vontade é de receber um abraço de saudade…

Super Mom - infographic of multitasking mother

Fato é que é difícil desapegar, não ter acesso, não poder cuidar, não sentir aquele cheirinho azedo maravilhoso dos nossos bebês. Como ficar sem o calorzinho daquele abraço babado que tudo ameniza?

Por outro lado, acredito ser muito bom retomar parte daquele ser individual que existia antes da maternidade. A persona profissional nos proporciona, de certa forma, esse resgate. Lembro perfeitamente do meu retorno da primeira licença maternidade. Fiquei quase 6 meses fora e sofri muito com o retorno. Chororô, muita apreensão, checadas infinitas no app da babá eletrônica, estrategicamente colocada para ser meu BBB particular… a coisa foi tensa até chegar a hora do almoço. Poder almoçar por uma hora sem interrupções, sem pressa e comer a comida quente, falando de qualquer assunto X senão crianças, bebês, fraldas e afins foi libertador.

Naquele momento, percebi como era importante ter um momento para mim, coisa quase impossível no turbilhão da maternidade integral. Ao longo dos dias, outras questões de individualidade foram aparecendo e se realizando no período fora de casa. As horas do almoço passaram a ter papel determinante para resolver a vida da Sabrina como indivíduo.

A adaptação por parte da Sophia foi ainda mais tranquila. Descobri que ela sabe dormir sem ser no peito, que se diverte, que come e evolui. Existe vida feliz longe da nave-mãe, mas a hora do reencontro é sempre a melhor do dia.

À medida que a Sophia foi crescendo, passou a expressar cada vez mais nitidamente seus sentimentos. Nossos reencontros pós jornada de trabalho passaram a ser cada vez mais especiais e celebrados. É realmente recompensador, após um dia pesadão na firma, chegar em casa e ouvir aquele pequeno ser vivo exclamar “- Mamain!” de bracinhos abertos, prontos pro melhor abraço do mundo ♥

Sendo marinheira de segunda viagem, achei que o segundo retorno pós licença seria menos penoso para o coração. Já sabia que tudo ficaria bem, que Cecilia ficaria com as melhores cuidadoras de todas (as vovós)… Ledo engano. O gosto da separação veio amargo. Incômodo. Apesar de já ter vivido a experiência, justamente esse fato me trouxe à luz o que perco passando 11h do meu dia fora de casa: as miudezas, tão rápidas e tão intensas nessa fase.

Duas semanas antes do dia D, que foi ontem, minha ficha caiu pesadamente. Doeu muito encarar o retorno em período integral, mas procurei trabalhar meu emocional para minimizar a sofrência ao máximo possível. Funcionou.

Saí de casa apreensiva, com o que ia encontrar, com a expectativa de como seria o dia dela longe de mim por tantas horas. As boas novas chegaram para aquecer o coração ao longo do dia. Ela dormiu, mamou o leite que deixei, interagiu e curtiu o colinho da vovó. Minhas horas passaram rápido, precisei exercitar a memória e minha faceta corporativa. Foi bom! Percebi que voltou à labuta uma Sabrina profissional diferente daquela que retornou da primeira vez, mãe de primeira viagem. Me senti mais segura, mais precisa e objetiva. Fiquei feliz.

E querem saber? A única coisa que não mudou foi a volta pra casa. Ela continua sendo o melhor momento do dia. E o melhor combustível para continuar seguindo em frente. Como mãe, como profissional, como Sabrina. Como sou.