Amamentação em tandem: os desafios por trás das mamadas duplas

Esse dia 10 está com um sabor mais que especial por aqui: além dos 6 meses de vida da Cecilia, comemoro também a marca de 15 meses de amamentação em tandem!

Você deve estar se questionando: como assim 15 meses sendo que ela só tem 6 de idade?! A amamentação em tandem, que significa amamentar dois bebês de idades diferentes, contempla também o período gestacional do bebê mais novo.

Sophia, a mais velha, completou nesta semana 2 anos e 6 meses, mamou durante toda a gestação da irmã e continua firme e forte consumindo seus 3 “mamás” diários, sem dar pinta de que está cansada deles.

Muita polêmica envolve o aleitamento em tandem, seja ele acontecendo antes ou depois da gestação. Fato é que os mitos são muito mais disseminados que as verdadeiras respostas e acabam gerando insegurança nas mães que optam por este caminho.

Durante a gravidez, existe o receio de que amamentar grávida pode ser abortivo, por conta dos hormônios que são liberados com o ato de sugar. Por mais que exista a presença da ocitocina, minha obstetra me explicou que a quantidade de hormônio excretada é muito baixa para iniciar um trabalho de parto prematuro, por exemplo.

Após o nascimento, paira a dúvida sobre a quantidade de leite. Será que a produção vai dar conta de alimentar duas crianças? O bebê mais novo não vai ficar com fome, porque o mais velho mamou? O mais velho vai roubar o leite do mais novo?

Apesar de ser extremamente satisfatório amamentar as duas ao mesmo tempo, foram vários os percalços e desafios que encontrei e ainda encontro nessa trajetória leiteira. Vou elencar os que mais me afetaram e o que fiz para tentar ameniza-los e seguir em frente.

DURANTE A GESTAÇÃO

PERTURBAÇÃO NA AMAMENTAÇÃO: uma sensação de repulsa, de raiva, de vontade de arrancar a cria do peito e sumir. Esses são alguns dos sintomas da perturbação na amamentação, que pode acontecer em qualquer momento do ciclo de amamentação, mas que costuma atingir principalmente gestantes que amamentam e mães que fazem o tandem.

Quando entrei no 3º mês de gestação e superei o cansaço da morte que sentia no primeiro trimestre, fui surpreendida por um sentimento visceral de irritação e incômodo quando a Sophia vinha mamar. A última coisa que eu queria é que ela estivesse ali. Foram muitas as vezes que me peguei rangendo os dentes de raiva e chorando escondida enquanto ela estava no peito.

Mamada com 39 semanas de gestação ♥

A sensação passava imediatamente quando ela soltava ou quando eu conseguia tirar o peito da boca dela após dormir. Fiquei apavorada com aquela sensação, pois até então, após superarmos as dificuldades iniciais da amamentação quando ela nasceu, as mamadas eram momentos prazerosos e de entrega entre nós duas.

Fui atrás de informação a respeito e soube da existência da perturbação. Durante a gestação, os seios ficam supersensíveis por conta de toda a preparação para a chegada do novo bebê. Os hormônios estão a milhão e desestabilizam o corpo da mãe por completo.

Sofri com a perturbação até o final da gestação, com uma intensidade maior entre as 14ª e 28ª semanas. À época dos primeiros sintomas, a Sophia ainda mamava de madrugada. Minha primeira providência foi fazer o desmame noturno. Nosso processo durou uma semana e contou com a participação ativa do pai, que assumiu o turno da madrugada quando ela acordava pedindo peito. Senti um alívio imenso em poder voltar a dormir na madrugada, algo essencial para a manutenção da amamentação.

Nos demais momentos do dia em que estava com ela, a amamentação era em livre demanda. Comecei a negociar com ela intervalos maiores entre uma mamada e outra. Não tive tanto sucesso quanto com o desmame noturno, por perceber que ela não estava preparada para desapegar do peito.

Confesso ter cogitado desmamar a Sophia nos momentos de desespero e cheguei, inclusive, a procurar uma consultora de amamentação que me auxiliasse nessa tarefa. Eu parei para pensar em toda a nossa trajetória, nas trocas que tínhamos durante os momentos de peito, nos benefícios do aleitamento para a saúde e bem-estar dela e cheguei à conclusão que, por mais que estivesse não tão legal para mim, que valia a pena passar por cima do incômodo e seguir.

Foi uma decisão difícil de ser tomada, mas que considero assertiva dento da minha realidade. Cada pessoa sabe os bônus e os ônus de suas escolhas, que são absolutamente pessoais e não devem ser objeto de julgamento alheio.

Hoje em dia, percebo a diferença entre as pegas das meninas e ainda sinto certo incômodo com as mamadas da Sophia. Como ela mama apenas 3x ao dia, optei por seguir indeterminadamente até quando ela quiser. Quando a sensação de incômodo é muito forte, converso com ela e peço um intervalo. Ela tem respeitado e me concedido o tempo que preciso, uma coisa linda de se ver.

TAMANHO DA BARRIGA: quanto maior a capacidade de movimentação da cria, maior a quantidade de posições do Mama Sutra que ela vai utilizar por mamada. Encontrar uma posição confortável para amamentar com a barriga do fim da gestação passou a ser um desafio literalmente grande.

Nada que conversas com jeitinho e beijinho não tenham resolvido ♥

MUDANÇAS NO LEITE: ao longo da gestação, percebi uma redução ignorante na produção de leite. Até a 10ª semana, os peitos inclusive empedravam ao longo do dia e a ordenha de leite acontecia no trabalho com o mesmo volume de sempre.

Após esse período, a quantidade de leite passou a ficar dia a dia mais escassa, até chegar ao ponto de só sair colostro (isso mais para o final da gestação). Essa mudança impactou também na recepção da Sophia, que passou a rejeitar uma das mamas.

Apesar da rejeição do peito, ela continuou mamando até horas antes do nascimento da irmã. Sua última mamada foi antes de dormir, às 22h30 da véspera do parto, que aconteceu às 6h10 da manhã seguinte.

DEPOIS DO NASCIMENTO

ROTINA DUPLA: depois da perturbação, considero que o maior desafio do tandem foi administrar as emoções da cria mais velha que, até então, tinha os peitos inteiramente à sua disposição.

A adaptação da Sophia levou duas intensas semanas para acontecer. Alguns minutos depois do nascimento da irmã, ela foi levada ao quarto em que estávamos e mamou duplamente pela primeira vez. Nunca vou esquecer da intensidade de seu olhar, que mirava atentamente na bebê.

Primeira mamada em tandem

Primeira vez que amamentei as duas crias juntas. Momento de muita emoção e profundidade ♥

Ela, por conta própria, interrompeu a mamada e pediu para sair do quarto no colo da avó. Ao longo de todo o dia, ela ficou tentando mamar e, quando pegava o peito, sugava rapidamente e largava, como se estivesse marcando território.

Nos dois primeiros dias, ela bicava o peito incessantemente. Quando a bebê estava mamando, ela queria subir em cima dela e garantir seu espaço. Resolvemos que seria o momento de estabelecer limites mais rígidos quanto à quantidade de mamadas.

Com a ajuda de nossa doula, que é psicóloga, estabelecemos a frequência destas mamadas e a forma como deveríamos comunicar isso à Soso. Percebemos que, quando falávamos a respeito da irmã ou das mamadas, ela parecia não prestar atenção, não ouvir.

Ledo engano. Sophia estava fingindo não prestar atenção como que em negação do que estávamos falando a ela. A solução foi insistir na conversa. Quando ela vinha mamar fora do horário, eu dizia a ela que não era hora de mamar, de acordo com nosso combinado. Ela chorava e eu rebatia comentando que sabia que estava triste, mas que precisávamos seguir nosso trato pois a irmã não sabia comer, não tinha dente e precisava daquele leite, entre outras justificativas (sempre verdadeiras, diga-se de passagem).

O segredo foi nomear as emoções dela e acolher suas reações, mesmo as mais agressivas. Ela se jogou no chão, tentou bater e morder a gente, parou de comer comida em casa… Lidamos com todos os sentimentos sendo pacienciosos e carinhosos com ela. O pai também entrou no ciclo e passou a ser o ponto focal dela nos momentos de frustração.

Após duas semanas, conseguimos ver uma luz no fim do túnel e estabelecemos a rotina média de 3 mamadas por dia (uma ao acordar, uma depois da escola e outra antes de ir dormir). Aos finais de semana, aumentamos em até 2 mamadas por dia, dependendo da atividade.

Desde sempre, fazemos apenas uma mamada com as duas irmãs juntas, uma em cada peito, que é a do final da tarde. Ao longo de minha licença maternidade, mantivemos a rotina da Sophia intocada (período integral na escola), para que ela não sofresse com a mudança e para que eu conseguisse dedicar tempo individual de qualidade para a Cecilia, tal como fiz com ela.

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Atualmente as duas interagem durante a mamada. Cecilia gosta de mexer no cabelo da irmã e Sophia fica fazendo carinho na mãozinha da caçula. Cada uma tem um peito próprio e priorizo o que produz mais leite para a Cecilia, que é quem precisa mais mamar.

Sinto-me extremamente feliz e orgulhosa em ter superado as dificuldades e conseguir nutrir minhas duas preciosidades juntas. Minha expectativa é manter o tandem até quando as meninas quiserem.

Nos momentos de desânimo, cansaço e irritação, procuro mentalizar que não irei amamentar para sempre e que esses momentos são importantes para a construção de um relacionamento cada vez mais unido entre nós três, fora os demais benefícios mágicos da amamentação.

Ali, com as duas crias plugadas em mim, sinto a plenitude de ser mãe e me aconchego no amor puro que aqueles pequenos seres emanam ♥