Memórias de um desmame [para minha querida Gotinha]

Xexi,

hoje faz 9 dias de sua mamada derradeira. Aproveitei que você não me pediu o peito, quando cheguei em casa, para começar o processo de desmame. Não deu tempo de fazer despedida, contagem regressiva, nada. Precisei agir no susto, agarrar a oportunidade para conseguir ir em frente com a empreitada.

Nos 971 dias que estivemos juntas nessa jornada láctea, encaramos 14 meses de teta dividida com sua irmã, 6 meses de ordenha na volta ao trabalho, 2 processos de desmame noturno, 1 mastite e, acima de tudo, muita entrega em cada mamada.

Minha filha, mamar vai muito além da alimentação: é o momento de tecer intimidade e trocar muito amor e energia. Peito é segurança, acolhimento, porto seguro. É curativo para os machucados, acalanto para o choro, relaxante para o sono.

A sensação de prover para sua cria um alimento perfeito, adequado às necessidades dela a cada gota é de um poder incrível e traz força para encarar a bravata que é aleitar.

Mas não podemos romantizar: por trás de toda a beleza, há muito esforço, muita abdicação para fazer acontecer. Amamentar é um processo de aprendizado para os dois lados. Envolve erro e tentativa, muita paciência e uma rede de apoio que suporte a entrega que o aleitamento exclusivo exige.

Nunca vou esquecer de sua primeira mamada: a liga entre nós foi imediata e aconteceu nos primeiros minutinhos após seu nascimento. Você rapidamente aprendeu a mamar e não tivemos nenhum problema de adaptação. O leite desceu após 24h de seu nascimento e sempre lhe foi ofertado em livre demanda.

Marinheira de segunda viagem, eu já não tinha o medo de outrora de não ter leite suficiente, de não saber quando oferecer o peito ou de ficar insegura quanto ao seu ganho de peso. Me entreguei ao momento e deixei fluir.

Você desde sempre teve uma relação muito intensa com o mamá: foram muitas as madrugadas tele-sena, em que você mamou de hora em hora. Foram várias mamadas em lugares, momentos e posições inusitados. Até no meio do bloco do carnaval, em meio a purpurina e fantasia, você mamou!

Mas, Xexi, a amamentação, tal como todo relacionamento entre duas pessoas, precisa funcionar legal para ambos os lados. E a mamãe chegou ao limite dela. Foram 4 anos e 9 meses amamentando ininterruptamente, sem limites de horário e quantidade, sem pudores em levantar a blusa onde quer que estivesse. Foram muitos anos de entrega. Chega um momento que a nossa individualidade fala mais alto. E eu precisei dar voz à minha, Cecilia.

Esperei ao máximo você me sinalizar que estava pronta para parar de mamar. Senti muita resistência de sua parte e nenhuma aderência aos limites que tentei colocar por diversas vezes. Senti muita culpa em ter que desmamar você, mas realmente precisava ter meu corpo de volta.

Você ficou chateada com o primeiro não à sua procura ao peito. Mas, para minha felicidade e surpresa, rapidamente entendeu que o ciclo havia chegado ao fim. Não precisei negar, não houve choro e nem tristeza: você estava pronta. Eu só precisava da coragem para seguir!

Fiz uma última ordenha com o leite que ficou empedrado em meu peito durante esses 9 dias de desmame. Fiz questão de deixar você ter contato com ele pela última vez. Foi emocionante ver que você não quis experimentá-lo. Você cresceu, minha Gotinha!

Quero que saiba que, apesar de não produzir mais leite, meu peito seguirá, para todo o sempre sendo fonte de muito amor, aconchego e entrega à você e sua irmã. Estaremos sempre juntas!

Com todo o amor,
Mamãe