Relato de parto da Cecilia

Hoje, 10 de maio e dia das mães, minha gotinha Cecilia completa 3 anos de vida. Sei que pode parecer um clichê barato, mas o fato é que o tempo voou. Esses últimos anos foram muito intensos e passaram rápido demais!

Cecilia é uma garotinha delicada, decidida, cheia de opiniões e com uma personalidade muito marcante! Ela está aprendendo a falar suas primeiras palavras com clareza e tem uma relação linda de amizade com sua irmã Sophia.

Para manter a tradição dos três anos, publico hoje o relato de seu parto, que também aconteceu em casa e teve o acompanhamento das obstetrizes Ana Cristina Duarte e Letícia Ventura, da Mamatoto Parteiras Urbanas, da doula Renata Rocha e foi registrado pelas lentes da Lela Beltrão.

Quando estamos em uma segunda gestação, temos a sensação de dominarmos o assunto, de saber exatamente o que vai acontecer, afinal de contas já passamos por aquela vivência, certo? ERRADO!

Me descobri grávida de Cecilia antes mesmo de minha menstruação atrasar. Sentia que ela já estava ali, sabia a data exata da concepção e que tinha sido num dia fértil… instinto materno não costuma falhar e daquela vez não falhou mesmo. Foi uma alegria que só! Sempre desejei ter mais de uma filha e, pela data que tudo aconteceu, elas seriam irmãs até de aniversário!

Para minha surpresa, eu que achava dominar o universo da gestação por recentemente ter vivido a experiência de gestar e parir, descobri na pele uma máxima antiga e que fez total sentido: nenhuma gestação é igual a outra.

A gestação de Cecilia foi absolutamente diferente da gestação da Sophia. Em todos os aspectos. Desde questões de saúde até preferências alimentares, crescimento da barriga, incômodos próprios da transformação gestacional. Vivi uma lactogestação que me apresentou uma sensação bastante peculiar: a perturbação da amamentação. Jamais havia projetado a possibilidade de sentir mal estar enquanto amamentava, algo que, após ser estabelecido com muito custo, tornou-se um momento especial e prazeroso entre eu e Soso. Aconteceu.

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Numa segunda gestação, a sensação que dá é que tudo anda mais rápido. O fato de já ter vivenciado aquela experiência faz com que a gente leve as coisas com menos ansiedade. Isso traz mais leveza, por um lado, mas também uma praticidade que acaba nos levando a registrar menos os momentos com a barriga, deixar as coisas menos preparadas com antecedência…

Em meu imaginário, nutria a ideia de que a gestação da Cecilia teria um desfecho similar ao da irmã: não chegaríamos às 40 semanas de gestação, seria um parto rápido, que aconteceria de maneira parecida. Meu pensamento ficou tão inclinado para isso que, após sofrer uma queda e bater a barriga no chão com 34 semanas, durante o expediente no escritório, resolvi antecipar minha licença maternidade e me afastar com 36 semanas. Fiquei com receio que as coisas seriam aceleradas como foram com a Sophia e queria aproveitar mais o final da gestação.

E assim o fiz. Passamos pelas 37, 38, 39 semanas… e os únicos manifestos que Cecilia dava eram algumas contrações de treinamento mais incômodas em algumas madrugadas. E só. Ultrapassar a idade gestacional de Sophia trouxe um sentimento de ansiedade que aumentou exponencialmente quando chegamos às 40 semanas e efetivamente não tínhamos nenhum sinal de trabalho de parto.

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Comecei a sentir uma angústia sem tamanho. Conversava muito com a Cecilia, dizendo para ela que estava pronta para recebe-la, que ela teria um dia só para ela, já que completamos 40 semanas 2 dias depois do aniversário de 2 anos da Sophia… e nada dessa menina sinalizar que queria vir. Eu tinha um sentimento de que estava enxugando gelo em casa. Foi uma sensação pesada de assimilar.

Até que chegamos no dia 09 de maio, dia do aniversário do pai da Cecilia. Acordei emotiva com a possibilidade de ela querer estrear no mesmo dia do pai – será que a vida nos reservaria uma surpresa dessas? Resolvemos sair para comemorar o aniversário na hora do almoço. Estava com um apetite bastante grande e comi bastante naquela refeição. Ao voltarmos para casa, perto das 14h, comecei a sentir um pouco de cólica. Tive o impulso de ir ao banheiro e, para minha surpresa, saiu um pouco de tampão mucoso no papel. Foi uma novidade, pois não perdi nada de tampão previamente na gestação anterior.

Ao longo de toda a tarde, fui sentindo aquela cólica ficar mais intensa até que, por volta das 18h, ela começou a ir e vir suavemente a cada 15 minutos. Mantive minhas atividades da casa normalmente, sentindo as contrações aparecerem e desaparecerem sempre sutis. Fiz um bolo para celebrar o aniversário do Rafael e o possível nascimento da Cecilia, tamanha a leveza das contrações.

Após jantarmos, resolvemos dar um toque na Renata, minha doula. Ela esteve conosco na gestação da Sophia e sabia de minha relação com a dor, que é de bastante resistência. Me indicou a tomar um banho longo de chuveiro para ver se era mesmo trabalho de parto ou não. Lá fui eu. Nesse momento, as contrações iam e vinham com um intervalo de menos de 10 minutos.

Ao entrar no chuveiro, esse intervalo aumentou junto com minha ansiedade. Será que ia encarar um alarme falso? Meu coração já estava tão apertado que tudo o que consegui fazer foi chorar no banho, deixando a emoção escorrer ralo abaixo. Após o banho, deitei na cama da Sophia e dei a última mamada para que ela adormecesse. Mal sabíamos que seria a última antes do parto…

Perto da meia-noite, voltamos a falar com a Renata. O intervalo seguia mais ou menos o mesmo de antes, 10 minutos. Ela achou por bem vir para nossa casa. Diz ela que sentiu que o parto aconteceria naquela madrugada e achava melhor se antecipar. Nós, por via das dúvidas, enchemos a banheira que estava no meio da sala com água fria, para temperar no momento que fosse preciso usar.

Quando Renata chegou, resolvemos fazer uma prece de intenção para Cecilia. Sentamos os três em minha cama, acendemos algumas velas e falamos em voz alta palavras de encorajamento para Cecilia. Acho que ela ouviu.

Deitamos todos para descansar, mas eu não conseguia pegar no sono. As contrações vinham a cada 10 minutos, mas não me incomodavam. O que estava pegando mesmo era a ansiedade. Resolvi ficar controlando o aplicativo de contrações. A linearidade dos intervalos me intrigou: será que a madrugada inteira seria naquele ritmo?

Lá pelas 4h da manhã, senti muita vontade de fazer xixi. Ao levantar da cama, veio uma pressão muito forte em minha pelve. A sensação era de que a cabeça havia descido. Comecei a ter contrações a cada 3 minutos. A partir daí, lembro apenas de flashes do que aconteceu.

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Chamei a Renata, que dormia no sofá da sala. Lembro de pedir para ela acionar a equipe e também meus pais. Consigo recordar da chegada da Lela, a fotógrafa, das massagens de compressão da Renata, do abraço que ganhei dos meus pais, que estavam um pouco em choque com o que viam.

Agarrei as paredes da sala nas contrações seguintes, que antecederam a chegada da Letícia, uma de minhas parteiras. A dor já estava num grau de intensidade que me paralisou de ir até o quarto para ser examinada. Deitamos no sofá mesmo para o exame de toque: 7 cm.

Não sei se minha memória é fidedigna com o tempo, acho que não, mas lembro da Letícia ligar para a Ana Cris, minha outra parteira, dizendo que não iria demorar para nascer. E não demorou mesmo.

Meu próximo flash é de sentar na banqueta e sentir uma vontade louca de ir ao banheiro: eram os puxos. Nem deu tempo de esquentar a água da banheira, que ficou intocada. Perguntei de Sophia, que dormia como um anjo nessa hora: parece que tinha pressentido que algo iria acontecer e ficou tranquila a madrugada toda.

Deixei o corpo cumprir sua vontade e fui sentindo a intensidade do círculo de fogo se aproximar. Não tinha medo, não tinha dor, só uma sensação muito forte de ardor e pressão. Foi quando a Letícia me disse para colocar as mãos para baixo para acolher a Cecilia.

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Senti o calor e a sensação escorregadia daquele corpinho em minhas mãos às 6h10 da manhã. Tive um arroubo de felicidade e amor que duvido conseguir sentir novamente. Ali entendi o real significado do amor que se multiplica: fiquei instantaneamente apaixonada por aquela gotinha de vida que havia acabado de pingar no meu mundo. E me senti o ser humano mais privilegiado por poder receber minha cria em minhas mãos, sem censuras, sem amarras, sem protocolos. Só com amor. Só com o meu calor.

Quase que instantaneamente ao seu nascimento, ela já veio para o peito, de onde não desgrudou durante toda a primeira hora de vida. ceciliarelato4Fui devagar para minha cama, onde ficamos o resto da manhã. Foi ali que a Sophia conheceu a irmã. Ela veio devagarinho, com sua pelúcia inseparável da Peppa, e se aconchegou no peito favorito. Senti o tempo parar quando aleitei as duas juntas pela primeira vez. Que sensação mais plena e poderosa!

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A vida seguiu normal depois do pós-parto imediato. A equipe, tão querida, se despediu, tomei um banho revigorante e sentei à mesa com toda a família para almoçar e celebrar aquela vida tão especial que, finalmente, estava entre nós! Porque parir é um evento familiar, fisiológico, natural ♥

Viva Cecilia!